
Livros e rios como pessoas
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Por Plauto Cardoso (*)
EL ARGENTINO
Em 47 anos de vida, me mudei 34 vezes. Fiz essas contas pensando alto durante o embarque de minhas caixas no caminhão que levaria minha última mudança do Rio de Janeiro para a capital mineira, Belo Horizonte. Notei que contava em voz alta ao ouvir um suspiro do caminhoneiro que lamentava não me ter encontrado antes, assegurando-me que já teria se aposentado.
Jurei que desta vez voltava a Belo Horizonte sem cozinhar um plano de fuga internacional no caminho. Era a quarta vez que por algum motivo a cidade me atraia de volta.
34 mudanças. Quando chego a Belo Horizonte com a outra parte da mudança agora vindo da minha doce e vibrante Buenos Aires, minha esposa sabia exatamente em quais malas estavam meus livros: as únicas cujo conteúdo precioso para seu dono era denunciado pelo investimento em embalagens plásticas especiais e apólice de seguro.
Quando se mudava para assumir o cargo de juiz na fronteira com a Guiana Francesa, no então território do Amapá, um dos barcos que levava os livros do meu pai começa a se afundar. Sem hesitar e pensar no risco a que expunha sua vida, meu pai de pronto se joga nas águas incertas do Rio Amazonas na tentativa de salvar a vida daqueles que iriam lhe fazer companhia no meio da selva, longe de sua esposa e filhos: seus livros. Guardo até hoje alguns exemplares ainda marcados pelas manchas das águas amazonenses. Sempre imagino que me foram doados como lembrança de como se deve tratar livros.
Clarice Lispector dizia que a coluna que mantinha no Jornal do Brasil a sequestrava intelectualmente a semana inteira. A escrita, antes mesmo de existir, já opera sua transformação no mundo do próprio autor. “O eco é anterior à voz que pronunciamos”, nos recorda o cantor espanhol Enrique Bunbury.
Diria que o fato de se escrever para um jornal nos aguça mais ainda a percepção. O deslocamento de nossa ótica é tão significativo que as mudanças são percebidas pelo escritor antes mesmo que escreva. É como se nos mantivéssemos em um certo estado de constante alerta. Mesmo relaxados, de repente, vem o momento inspirado pela realidade a nossa volta. É chegado a hora de matear.
Vivendo espiritualmente na Argentina, ansiava por trazê-la de maneira mais sólida para minha Belo Horizonte. A iniciativa da Biblioteca Pública do Estado de Minas Gerais de abrigar de maneira permanente em suas Coleções Especiais esse nosso matear mensal coroa esforços de integração entre povos. As colunas do jornal El Argentino agora são parte da prestigiosa Coleção Mineiriana e as edições impressas serão adicionadas ao Acervo das Coleções Especiais da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais.
Milhares de escolas públicas, em quase todos os 853 municípios do continente que é o estado de Minas Gerais, através da capilaridade da impressionante rede de bibliotecas que gerencia a Biblioteca Pública Estadual, agora farão parte de nosso sonho coletivo de integração legislativa e cultural dos países do Mercosul e de nossa luta em defesa da vida em comum, de nosso patrimônio cultural e ambiental. Agora Gualeguaychú está solidamente a poucos passos de minha casa mineira.
Terra de montanhas e rios que inspiram seus poetas, a intrépida Belo Horizonte dá um gigante passo para o constitucionalismo Sul-Americano. Dia 05 de novembro último, sob a ousada batuta de meu colega na Faculdade Pitágoras, o Prof. Lafayette, ajuíza-se na justiça federal em Minas Gerais a primeira ação na história da Terra Brasilis na qual um rio, o Rio Doce, bate às portas do judiciário como sujeito de direito. E o faz com base na belíssima Constituição de Montecristi de 2008 do irmão Equador, na Lei boliviana dos Direitos da Terra Mãe de 2012, na jurisprudência da Corte Constitucional colombiana que reconheceu em 2016 o rio Atrato como sujeito de direito, na Declaração Mexicana dos Direitos dos Rios, nos tratados internacionais com os quais nos comprometemos como nação e nos valores da Constituição Brasileira.
Livros e Rios como pessoas. Isso me dá esperança na humanidade.
Querido Gualeguaychú, Rio do Jaguar, do Tigre Grande, aquele abraço! Nas suas margens nascerá em julho próximo outra pessoa, um pequeno livro em sua homenagem: Cartas à Gualeguaychú.