
Convidado para falar sobre “A Cultura como Eixo do Desenvolvimento”, debate realizado na tarde deste sábado (22) no Festival Literário de Araxá, o secretário de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Marcelo Matte, fez questão de chegar um dia antes no evento. Acompanhado da esposa e jornalista Isabela Scalabrini, quis conhecer melhor o Fliaraxá, que visita pela primeira vez.
“Estou muito impressionado com o volume de pessoas, com a diversidade da oferta, tem desde jazz ao vivo até vinho, foodtrucks, palestras, autógrafos, escritores extremamente relevantes do Brasil e do exterior. Enfim, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É um festival espetacular, melhor e maior do Brasil, e merece todo o apoio para continuar existindo”, resumiu.
Marcelo Matte pediu pra realizar a entrevista após a solenidade de entrega do Prêmio de Redação “Maria Amália Dumont”, que seleciona os melhores trabalhos de alunos de escolas de ensino médio fundamental de Araxá, pois queria tomar contato com a experiência. A solenidade foi um dos momentos mais emocionantes do Festival, levando muitas pessoas às lágrimas ao ouvirem os depoimentos das crianças vencedoras. E não foi diferente com o secretário.
“Você me achou saindo do banheiro, pois fui lá enxugar minhas lágrimas. Não resisti ao ver uma menininha de 9 anos, que mora na área rural de Araxá, ganhar um prêmio em dinheiro pelo primeiro lugar no Concurso de Redação. Foi extremamente emocionante. Ela é uma menina pobre e contou na redação que nunca saiu do lugar onde nasceu, uma fazenda aqui da região, mas que ela viajava através dos livros que lê”, falou Marcelo à reportagem. A menina é Ariana Emanuelly Martins dos Santos. Com a redação “Ler, viver e imaginar”, foi a vencedora do Prêmio na categoria onde concorrem crianças de 9 a 11 anos.
Vi o senhor percorrendo os estandes e debates do Fliaraxá, o que chamou sua atenção?
A proximidade entre autores e público. É muito bom você conhecer os seus autores preferidos. É da maior importância o contato pessoal com aqueles que fazem literatura. Talvez este seja o principal incentivo à leitura e à busca do conhecimento. E nós temos aqui a presença de pessoas extremamente importantes e relevantes do ponto de vista da cultura brasileira.
Qual o papel da leitura no processo cultural?
O mundo digital quase serve de desincentivo à prática tradicional da leitura, que pressupõe uma ação mais reflexiva, um contato direto de quem lê com um instrumento de leitura que pode ser um livro, um tablet ou um computador. Mas o mundo digital é muito rápido, muito superficial, baseado as vezes em informações de má qualidade. É importante que os festivais de literatura, como esse, retomem o conceito original do contato direto entre o cidadão, leitor ou consumidor a uma informação de qualidade para que a gente preserve a cultura na sua essência.
A secretaria é o primeiro cargo público que o senhor ocupa. Como avalia estes primeiros meses de trabalho?
É interessante. No primeiro momento a gente fica um pouco chocado, mas está servindo como aprendizado. A maior dificuldade é como agir com pouco ou nenhum dinheiro, dar vazão para as demandas com articulação política, com a atração de investimento privado é um enorme desafio. Por outro lado, no serviço público se você consegue um pequeno resultado, de um pequeno projeto, isso tem muito impacto na vida das pessoas, numa comunidade. Você causa um impacto cultural, social, econômico extremamente relevante e isso é muito gratificante. Nós já temos algumas vitórias para comemorar e eu fico muito feliz com elas.
Minas Gerais vive uma das maiores crises financeiras de toda sua história. A cultura ficará neste cenário difícil?
Nós estamos trabalhando, Minas Gerais tem hoje a pior situação fiscal do país. É uma situação fiscal desastrosa, não tem dinheiro nenhum, mas nós estamos trabalhando. No caso da cultura, nós temos que buscar dinheiro na iniciativa privada e promover articulações com o governo federal para que ele nos apoie. Além disso, nós temos contado com um apoio muito grande dos outros setores do governo do estado. Tudo que eu tenho pedido eu tenho conseguido, não tenho nenhuma queixa. Assim, já estão em andamento duas obras: uma para reforma do teto da Biblioteca Estadual e já aconteceu um pregão para recuperar o ar condicionado do Palácio das Artes, da Fundação Clóvis Salgado, onde faremos outras reformas na estrutura. Eu estou com esperança de conseguir fazer o meu trabalho. Temos um conjunto de secretários, além do governador Romeu Zema, que são muito competentes, bem-intencionados, honestos.
O Fliaraxá é um evento financiado pela Lei de Incentivo à Cultura, um instrumento que tem sido questionado recentemente. Houve até um projeto apresentado na Assembleia Legislativa de Minas que propôs o fim da Lei Estadual. Qual sua opinião sobre essa lei?
Nós somos radicalmente a favor das leis de incentivo, tanto estaduais, federais, municipais. Somos 100% a favor. Queremos preservar o que temos e inclusive aumentar o volume. A gente acha que o que tem é pouco dada a demanda absurda de agentes culturais e de necessidade de proteção ao patrimônio histórico, de proteção aos museus, bibliotecas. É dever do estado não só promover, incentivar a ação cultural, mas distribuir de maneira justa. As leis de incentivo têm suas imperfeições. Pequenas ações culturais, turísticas ou de preservação do patrimônio ficam esquecidas na distribuição de verbas porque elas tão lá na ponta, os municípios de baixo IDH e ali os operadores culturais não conseguem ou não sabem apresentar os projetos para conseguir os recursos. Para ajudar na reversão desta distorção, temos duas ações já em andamento; a primeira é um manual digital no portal da secretaria que ensina a apresentar o projeto. Depois, nós temos um curso à distância para capacitar o gestor a fazer esses projetos de acordo com a legislação, regras e normas.
Houve uma crítica, vinda principalmente do Fórum Permanente de Cultura, contra a junção das secretarias de turismo e cultura. Como o senhor avaliou essa mudança na Reforma Administrativa?
Existem opiniões que na minha visão não são excludentes. Eu acho que a defesa da cultura é um dever do Estado sim, está na Constituição inclusive. Assim, o Estado tem o dever institucional de apoiar a cultura. Especialmente em Minas Gerais, que é repleto de patrimônios históricos e edifícios tombados. Na nossa visão, nós temos que preservar os atrativos culturais como destinos turísticos e isso é fator de desenvolvimento da economia. Se promovermos a cultura mineira como destino turístico, nós podemos ativar o desenvolvimento de economia, gerando emprego, renda. É preciso aproveitar os atrativos culturais que temos, os circuitos do queijo, do café, da cachaça, as nossas cachoeiras, os patrimônios de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes. Enfim, temos que aproveitar esse patrimônio valiosíssimo como destino turístico. Nosso estado tem uma estrutura econômica muito velha, muito dependente de atividades minerárias, siderúrgicas, uma base econômica muito ligada a commodities de baixo valor agregado e a gente entende que uma das saídas para isso é a economia criativa.
Com uma vida dedicada ao jornalismo, como o senhor avalia questão da relação com jornalismo e literatura?
Eu sempre gostei do new journalism. Os escritores americanos tinham um viés de contar os fatos através de uma narrativa. Era o meu estilo de literatura favorito e eu acho que com as mídias sociais, de certa forma, todo cidadão é um jornalista, porque ele tem um meio de comunicação e relata os fatos de acordo com seu ponto de vista, seu olhar. E acho que estamos vivendo num mundo um pouco superficial nas mídias sociais, mas por outro lado, as novas ferramentas de comunicação transformaram cada cidadão em um jornalista. Esse é um momento bastante interessante.
E quanto aos autores brasileiros, quais mais admira?
Eu gostava do João Antônio, que era um jornalista excelente, um escritor que tinha um olhar muito jornalístico para a realidade brasileira. Ontem eu vi no caminhão biblioteca um vídeo sobre Canudos. Lembrei que Euclides da Cunha foi um escritor que eu sempre admirei. Também admiro muito o Zuenir Ventura, que acabei de encontrar aqui no Fliaraxá e que foi meu chefe quando eu trabalhei na revista Istoé. (Kerison Lopes)