
O Governo de Minas Gerais lançou, nesta quarta-feira (18/12), em Lagoa Santa, a consulta pública para a concessão de três unidades de conservação da Rota das Grutas Peter Lund, projeto que integra o Programa de Concessão de Parques Estaduais (Parc). A concessão, anunciada pelo governador Romeu Zema, é a primeira na área ambiental do Estado, e está prevista para o prazo de 25 anos. A ação contempla a possibilidade de uso das áreas para fins turísticos, como hospedagem, alimentação, atividades de lazer e aventura e venda de souvenires.
A rota abrange o Parque Estadual do Sumidouro, em Lagoa Santa e Pedro Leopoldo; o Monumento Natural Peter Lund, em Cordisburgo; e o Monumento Natural Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas. Durante a consulta pública, a população e o mercado poderão manifestar opiniões sobre a concessão das Unidades de Conservação. Em 31 de janeiro haverá uma audiência pública para que os interessados possam esclarecer dúvidas e dar opiniões sobre o projeto. Após essa etapa, o edital será lançado. A expectativa do governo é que, em setembro de 2020, seja iniciado o novo modelo de gestão.
O valor estimado de contrato é da ordem de R$ 347 milhões, com investimento inicial de R$ 6,3 milhões. O governador Romeu Zema enfatizou que, assim como em outras partes do mundo, é preciso conciliar preservação ambiental e desenvolvimento econômico, com geração de empregos e recolhimento de impostos. “Um empreendimento como esse, que visa atrair e atender pessoas e ser divulgado, realmente cabe à iniciativa privada. E não estamos passando nada para o setor privado, estamos apenas concedendo dentro de uma série de regras que serão fiscalizadas”, explicou.
Foco na preservação
O Parc é coordenado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), com a participação da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra) e da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), por meio de um Acordo de Cooperação Técnica.
O secretário de Estado de Cultura e Turismo, Marcelo Matte, ressaltou que o turismo associado à cultura e ao patrimônio histórico e natural do estado são uma importante ferramenta de ativação da economia mineira. “Temos um potencial imenso para o ecoturismo, o turismo de aventura e o turismo sensorial – ligado à natureza. Nossos parques são ativos de grande relevância e podem se consolidar e ganhar destaque como as Cataratas do Parque Nacional do Iguaçu, e também a exemplo de alguns do exterior, como o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos”, enfatizou.
Ele destacou, também, a melhoria para as atividades acadêmicas com o incremento na infraestrutura. “Com a ativação econômica, teremos melhores e mais condições para a realização das atividades acadêmicas e pesquisa já existentes e, ainda, mais recursos para preservação ambiental e expansão destas atividades. Estamos dando um passo extremamente importante, baseado na economia criativa e não em um modelo engessado de gestão. Além disso, temos tudo para tornar a experiência do viajante em Minas Gerais cada vez mais prazerosa e temos trabalhado incansavelmente em busca de melhorar os serviços turísticos ofertados no estado, sem perder de vista o cuidado com as nossas riquezas culturais e naturais”, pontuou.
De acordo com o diretor-geral do IEF, Antônio Malard, o objetivo do Estado é transferir a gestão de serviços e visitação para uma entidade privada, fazendo com que a gestão ambiental e a preservação dessa atividade permaneçam com o Estado. “Esse modelo faz com que possamos focar nossos esforços naquilo que fazemos tão bem (preservação ambiental), transferindo a visitação para uma entidade que saiba fazer a administração muito melhor do que o Estado. Então, ganha Minas Gerais, a preservação ambiental, o turismo, a economia, mas ganham, principalmente, os mineiros”, avaliou.
Projeções
A modelagem do projeto de concessão foi realizada pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), com a participação das instituições componentes do Parc. Foram contempladas projeções econômico-financeiras, estudos jurídicos, minutas dos documentos licitatórios, análise dos aspectos ambientais e de preservação do patrimônio público, além da definição das intervenções e serviços mínimos a serem ofertados.
O secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Germano Vieira, ressaltou a potencialidade de incrementos neste e nos demais equipamentos públicos de Minas, mas sem deixar de lado a preservação ambiental. “Estamos diante de uma união da história, cultura, do turismo, da economia, mas também da preservação ambiental. Vamos incentivar não só a visitação às grutas, mas também os diversos outros equipamentos públicos que as circundam, desenvolvendo mais estruturas de hospedagem, gastronomia, e o turismo ecológico”, afirmou.
O secretário de Infraestrutura e Mobilidade, Marco Aurélio Barcelos, destacou que o governo de Minas conseguiu reunir os esforços de distintas secretarias e competências. Com o Escritório de Concessões e Parcerias foi possível executar o trabalho de diagnóstico e prognóstico, com o objetivo de apontar quais caminhos seriam trilhados para viabilizar novos investimentos em diferentes projetos e setores, com a participação da iniciativa privada. “Este ano já estamos colhendo os primeiros frutos. Um deles é a consulta pública desse projeto, e outros virão, nos anos subsequentes, não só na parte da conservação, mas também na infraestrutura, logística e no transporte”, finalizou.
Sobre Rota Lund
A Rota das Grutas de Peter Lund tem grande relevância internacionalmente. O cientista dinamarquês Peter Wilhelm Lund descobriu mais de 12 mil peças de fósseis em cavernas nas imediações de Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os avanços de Lund permitiram a escrita de uma narrativa da história do período pleistocênico brasileiro.
Peter Lund explorou mais de 800 cavernas e, em algumas das estruturas, ele foi o primeiro a localizar e explorar. Em 1825, o cientista veio para o Brasil e se fixou numa aldeia de pescadores do litoral fluminense, estudando o comportamento das formigas e os ovos dos moluscos.
Depois de mostrar suas descobertas na Europa, ele voltou ao Brasil, em 1833, quando teve conhecimento da existência de grandes ossos em cavernas calcárias em Lagoa Santa. Em 1835, o dinamarquês visitou as grutas Lapa Vermelha e Lapa Nova de Maquiné. A partir de suas escavações, ao longo dos anos, puderam ser identificadas diversas espécies de animais como cavalos, preguiças terrícolas gigantes e tigres-dentes-de-sabre.
Em 1843, Lund descobriu ossos humanos de cerca de 30 indivíduos, junto a fósseis animais. Os fósseis descobertos eram bastante distantes dos indígenas americanos e próximos dos negróides. Suas características físicas eram homogêneas, o que indica seu isolamento genético.
Parque Estadual do Sumidouro
Possui área total de 2.004 hectares e está situado nos municípios de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo. Caracterizado como Unidade de Proteção Integral, o local tem objetivo de promover a preservação ambiental e cultural, possibilitando atividades de pesquisa, conservação, educação ambiental e turismo. A unidade foi nomeada “Sumidouro” devido a sua lagoa, que possui um ponto de drenagem das águas da bacia típica dos terrenos calcários. Seus principais atrativos são a Gruta da Lapinha, Museu Peter Lund, Casa Fernão Dias, Circuito Lapinha, Trilha da Travessia, Trilha do Sumidouro, Escalada, Canoa e o Museu do Castelinho.
Monumento Natural Peter Lund
Localizado em Cordisburgo, foi criado em 2005 para proteger e conservar uma das mais belas cavernas de calcário do país, a Gruta do Maquiné – uma cavidade natural, subterrânea, que possui importância histórico-cultural e científica por abrigar sítios arqueológicos de animais adaptados à vida dentro de cavernas. A caverna é explorada para fins turísticos desde 1908 e foi a primeira cavidade brasileira a receber iluminação artificial, em 1967. A gruta tem 650 metros de extensão, abriga mais de 60 espécies e tem importância histórico-cultural e científica por abrigar sítios arqueológicos de animais adaptados à vida dentro de cavernas.
Monumento Natural Gruta Rei do Mato
A Gruta Rei do Mato possui formações de estalagmite e estalactite raras em todo o mundo e está situada na região conhecida como “Carste” de Lagoa Santa – formação geológica e geomorfológica com rochas sedimentares como calcário e dolomito. A paisagem na gruta é composta por formações remanescentes do Cerrado e da Mata Atlântica. Na flora, as espécies mais comuns são ipê amarelo, bromélia do cerrado, gonçaleiro, pindaíba-vermelha, peroba-rosa, macaúba, coco-de-quaresma, araticum e mandiocão. Seu primeiro mapeamento documentado foi feito pela Sociedade Excursionista e Espeleológica em 1973. Contudo, apenas em 2009 a área foi reconhecida como monumento natural. A gruta tem 220 metros de caminhada e cerca de 65 metros de profundidade.
Fotos: Pedro Gontijo/Imprensa MG