“Poderia ser Rosa, mas poderia ser Maria. Poderia ser Lina, Bia, Cristina, Andreia, Cristiane, Antônia, Lucrécia, Cláudia, Naline, Amanda e Sílvia”. Essa simples relação de nomes femininos poderia se tornar relatos contundentes de violência contra a mulher, que não escolhe nome, classe social ou religião, uma vez que todas as mulheres estão vulneráveis e correm risco real de serem agredidas. Com essa declaração contundente, Cristiano Reis, diretor da Cia de Dança Palácio das Artes, abre a edição de agosto do “Encontro com a Cia – Repertórios CDPA 50 anos”, lançado no canal do YouTube da Fundação Clóvis Salgado (FCS), na quarta-feira ( 19/8), às 19h.
Dessa vez, o tema da conversa virtual é sobre o espetáculo Poderia ser Rosa, da Cia de Dança Palácio das Artes (CDPA), produzido em 2001, cuja concepção e coreografia ficaram a cargo de Henrique Rodovalho. Na época, Cristina Machado era diretora da CDPA. Concebido cenograficamente para apresentações em espaços abertos e palcos alternativos, Poderia ser Rosa tem como tema a violência urbana, em especial, a violência contra a mulher.

A inspiração surgiu do crescente número de mulheres assassinadas na região do Anel Rodoviário de Belo Horizonte no período de 1998 a 2000. Através do uso de espelhos que fazem com que a imagem do bailarino se confunda com a do espectador, o coreógrafo Henrique Rodovalho enfatiza a ideia de que qualquer um pode ser a vítima ou o assassino. Depoimentos de vítimas da violência e música de Godie Saturnzreturn compõem a trilha composta por Murillo Corrêa, estabelecendo um conflito entre o ambiente intimista e o caos social urbano.
“Encontro com a Cia – Repertórios CDPA 50 anos” tem mediação de Cristiano Reis e conta com a participação de Kate Rocha, coordenadora do Centro Especializado de Atendimento à Mulher Benvinda; Henrique Rodovalho (concepção e coreografia), Cristina Machado (ex-diretora da CDPA), Beatriz Kuguimya (bailarina da CDPA), Cristiane Oliveira (bailarina da CDPA de 2000 a 2009), Andrea Spolaor (bailarina da CDPA de 2000 a 2009), Murilo Corrêa (trilha sonora), Fernando Cordeiro (bailarino da CPDA) e Lair Assis (bailarino da CDPA).
Aumento da violência
Após quase 20 anos, ainda se faz necessário trazer à tona um tema que continua deixando marcas profundas na sociedade brasileira. Segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH), no último mês de abril, quando o distanciamento social, como forma de combate à pandemia, completava mais de um mês, o número de denúncias de violência contra a mulher recebida no canal 180 aumentou 40% em relação ao mesmo período do ano anterior. Um dado alarmante que deixa claro que os desafios sobre o tema são muitos e essa violência chega até as crianças, como é o caso da cruel história dos estupros cometidos por um tio contra a sobrinha de 10 anos de idade que, no momento, choca o país.
Apesar da urgência do Brasil ter que enfrentar essas questões que continuam causando sofrimento incalculável para muitas mulheres, segundo Kate Rocha, coordenadora do Centro Especializado de Atendimento a Mulher Benvinda (CEAM Benvinda), a partir de 2001, ano em que o espetáculo estreou, ocorreram avanços significativos no combate à violência contra a mulher.
“Em Belo Horizonte, a década de 90 foi marcada pela violência contra a mulher no âmbito doméstico, independentemente da raça, idade ou classe social. Entre 2001 e 2020, houve um marco importantíssimo: a promulgação da Lei Maria da Penha, no dia 7 de agosto 2006. Considerada pela ONU (Organizações das Nações Unidas) como a terceira melhor lei que trata dessa temática no mundo, a Maria da Penha pensa nos caminhos de proteção, é educativa, e traz as responsabilizações e penalidades diante do crime cometido. Ela tipifica que a violência não se restringe apenas à física, que deixa marcas no corpo. A lei trata também da violência psicológica, moral, sexual e patrimonial”, explica Kate Rocha.

Tema x estilo
O goianiense Henrique Rodovalho, autor dos espetáculos apresentados pela Quasar Cia de Dança, foi convidado para criar a coreografia de Poderia ser Rosa. Dono de um estilo que retrata imagens do cotidiano brasileiro, com uma movimentação específica, repleta de detalhes e ações suaves, Rodovalho relembra que, durante o processo de criação, o tema o interessava mais do que a própria linguagem da dança que seria aplicada. Outra questão que marcou o coreógrafo foi o fato das apresentações serem em espaços abertos e públicos, ampliando o acesso.
“Naquele momento, em 2001, a Cia de Dança Palácio das Artes entendia que deveria estar em diversos lugares cumprindo o seu papel de companhia pública, com uma linguagem contemporânea conectadas com a horizontalidade”, comenta Cristina Machado.
Para a bailarina Beatriz Kuguimya da CDPA, que atuou no espetáculo Poderia ser Rosa, o processo de pesquisa foi desafiador, pois, além de mergulhar em um tema que ainda é um tabu na sociedade, havia uma tensão e uma violência na movimentação comandada pelo Henrique Rodovalho. “A ideia era passar que a mulher violentada poderia ser qualquer uma de nós. Além disso, nós suamos muito para assimilar e chegar à linguagem que o Rodovalho desejava. Outra característica interessante do espetáculo é que os bailarinos tocavam pouquíssimo nas mulheres, mas, com a ajuda da trilha do Murilo Corrêa, Poderia ser Rosa passava claramente a mensagem da violência contra a mulher. Então, eu vejo como um trabalho muito potente”, relembra Beatriz.
#PalácioEmSuaCompanhia
A diversidade cultural do Palácio das Artes encanta o público mineiro há décadas. No período de distanciamento social, o propósito é continuar a oferecer toda essa produção artística para o público, mas em casa. Com esse objetivo, foi lançado no dia 3 de abril o projeto PALÁCIO EM SUA COMPANHIA, que disponibiliza conteúdo cultural e produções inéditas da FCS em plataformas virtuais. São vídeos criados pelos integrantes dos Corpos Artísticos (Cia de Dança Palácio das Artes, Coral Lírico de Minas Gerais e Orquestra Sinfônica de Minas Gerais), coletivos e individuais, veiculados nas redes sociais da FCS (Facebook, Instagram e Youtube) e na Rede Minas. São criações artísticas, pesquisas e bastidores. É oferecida também uma ampla programação com curadoria do Cine Humberto Mauro, composta por mostras de cinema e sessões comentadas. Nas artes visuais, foi criado um potente programa de difusão, reflexão e resgate de exposições realizadas no Palácio das Artes. No Canal da FCS - Palácio das Artes no YouTube, são exibidos também registros de espetáculos e produções da FCS ao longo de sua história - óperas, concertos eruditos, populares e de espetáculos de dança. O EDUCATIVO FCS, acessado pelo site da FCS, reúne programação e conteúdos sobre as artes visuais, com reflexões e atividades práticas. A formação artística também está sendo oferecida virtualmente, pelo Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart da FCS, com cursos, aulas abertas e debates. Ao ofertar essa intensa produção, a FCS permite a mais pessoas o acesso a um conteúdo cultural de qualidade, além de assegurar o direito à fruição artística de forma ampla e gratuita.
Cia de Dança Palácio das Artes
Corpo artístico da Fundação Clóvis Salgado - é reconhecida como uma das mais importantes companhias do Brasil e é uma das referências na história da dança em Minas Gerais. Foi o primeiro grupo a ser institucionalizado, durante o governo de Israel Pinheiro, em 1971, com a incorporação dos integrantes do Ballet de Minas Gerais e da Escola de Dança, ambos dirigidos por Carlos Leite – que profissionalizou e projetou a Companhia nacionalmente. O Grupo desenvolve hoje um repertório próprio de dança contemporânea e se integra aos outros corpos artísticos da Fundação – Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e Coral Lírico de Minas Gerais – em produções operísticas e espetáculos cênico-musicais realizados pela Instituição ou em parceria com artistas brasileiros. A Companhia tem a pesquisa, a investigação, a diversidade de intérpretes, a cocriação dos bailarinos e a transdisciplinaridade como pilares de sua produção artística. Seus espetáculos estimulam o pensamento crítico e reflexivo em torno das questões contemporâneas, caracterizando-se pelo diálogo entre a tradição e a inovação.
A Fundação Clóvis Salgado é uma entidade vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais.
Imagens: Daniel Mansur